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      FD
    • 25 Agosto 2007

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    Serafim Duarte, Militante , do BE

    A s férias de Verão convidam-nos a passear pela nossa cidade de forma mais descontraída e atenta. A impressão que Coimbra transmite a quem nela se desloca é a de um frenético fervilhar de construção imobiliária em zonas nobres da cidade. Durante os últimos vinte anos, a cidade foi expulsando população para as periferias e concelhos limítrofes. A razão é simples. Os preços da habitação atingiam níveis proibitivos para a maioria das bolsas da classe média, que se via obrigada a satisfazer as suas necessidades habitacionais a preços mais acessíveis em Condeixa, Miranda do Corvo, Lousã, ou mesmo nas freguesias semi-urbanas que mais cresceram, como S. Paulo de Frades, Eiras, S. Silvestre, S. Martinho do Bispo ou Santo António dos Olivais. Assim, assistimos a um crescimento de construção globalmente marcado pela ausência de planeamento urbano, de racionalidade e de respeito pelos equilíbrios ambientais. A falta de qualidade urbanística reflecte-se na fraca qualidade de vida, na escassez de espaços verdes e de lazer e no aumento dos problemas de poluição, de saneamento, de circulação e transportes. Entretanto, o centro da cidade foi-se esvaindo, fenecendo lentamente, não se descortinando qualquer esperança de salvação do estado comatoso em que se encontra.

    Nestes últimos anos, porém, assistimos a um inusitado dinamismo de construção que constitui um verdadeiro enigma. Vejamos nos últimos vinte anos (1981-2001) a população de Coimbra cresceu 6,8%, ganhando apenas 9513 novos habitantes. Segundo o Censo de 2001, para uma população de 148 443 habitantes, haveria no concelho 68 096 alojamentos, dos quais mais de 7500 estariam devolutos, na sua esmagadora maioria para venda ou arrendamento. Se a procura de habitação é manifestamente inferior à oferta, como entender a enorme pressão imobiliária que se faz sentir na cidade? Como entender loteamentos como o de Lordemão com mais 2700 fogos para cerca de 7500 habitantes, ou o da Portela para cerca de 15 000 novos habitantes, já para não falar nos Jardins do Mondego, na Quinta de S. Jerónimo, na Quinta das Lágrimas, no Mondego Residence, no Eurostadium, no Celas Plaza e tantos outros que somados deverão representar, uma oferta habitacional, a cálculos por baixo, para mais de 35 mil a 40 mil novos habitantes e ainda por cima a preços proibitivos para a esmagadora maioria da população, mesmo da classe média. Se a população do concelho apenas cresce a uma modesta taxa média anual de 0,7% (c. 470 hab.) como entender este crescimento desmesurado da oferta de habitação? Decerto que a sua explicação não se encontra no lado da procura.

    Embora haja uma manifesta apetência pela habitação de luxo em sectores da classe média alta com elevado poder de compra, as habitações que libertam dificilmente encontram compradores. O resultado é o aumento exponencial de habitação devoluta e o avolumar da crise imobiliária.

    Parece haver, por parte das construtoras, a par de uma lógica predadora dos solos e espaços verdes, uma estratégia de fuga para a frente face à evidente crise do sector que já se manifesta, com cada vez mais nitidez. Constrói-se cada vez mais, mantêm-se os preços artificialmente elevados, alimentando a bolha da especulação imobiliária que mais tarde ou mais cedo inevitavelmente rebentará nas mãos dos seus promotores, com repercussões socioeconómicas consideráveis.

    serafim.duarte@sapo.pt
    http://jn.sapo.pt/2007/08/23/pais/o_enigma_multiplicacao_imobiliaria_c.html
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