Saiu hoje pelas 14h uma reportagem da CMTV no Grande Jornal Investigação sobre a Dilomi, uma empresa de casas modulares em Vila Real. Já tinha ouvido falar mas não tinha ainda percebido a dimensão.
Portanto, vários clientes lesados, contratos assinados há quase dois anos, obras que nunca arrancaram, e cada cliente a falar em dezenas de milhares de euros pagos. Tive a ver a reportagem e depois pesquisar um pouco mais sobre o que aconteceu, e partilho aqui o que encontrei, com fontes oficiais sempre que possível, porque acho que vale a pena ficar registado enquanto isto tudo ainda está em curso.
A empresa
A Dilomi - Sustainable Houses, Lda (NIF 518084795) tem sede em Vila Real e foi constituída a 17 de Junho de 2024. À data deste post tem alvará IMPIC válido (nº 112958, Classe 2 até 400.000€), inscrito a 22 de Agosto de 2024, ou seja, dois meses depois de a empresa nascer.
Pela reportagem da CMTV, sabe-se que entre os clientes que vieram a público estão:
* Uma senhora de 67 anos, em Valnogueiras, que pagou cerca de 48.500€ por uma casa de 97 mil * Outra cliente que pagou cerca de 52 mil por uma de 122 mil * Um casal jovem que pagou 25 mil por uma de 170 mil
Há ainda ex-funcionários com processos a correr no Tribunal do Trabalho de Vila Real por salários em falta.
A resposta oficial da Dilomi à CMTV, depois de a empresa ter recusado entrevista presencial, foi transmitida por mensagem e diz o seguinte: "a empresa encontra-se a laborar, tendo neste momento 16 obras em execução a decorrer. Confirmamos que existem 5 clientes que optaram por rescindir os seus contratos unilateralmente."
A empresa anterior do gerente
O gerente da Dilomi Carlos Marques e é sócio maioritário com 90%. É também sócio único de outra empresa, na mesma morada física, que vinha de antes:
ML VIRTUAL, UNIPESSOAL LDA (NIF 516080482), constituída a 15 de Julho de 2020. Pelo CAE (62090, "Outras actividades relacionadas com as tecnologias da informação") era basicamente comércio electrónico. É a "Mercado Livre Virtual" que a ex-funcionária menciona na reportagem, nada que ver com construção.
O que está visível nos registos públicos sobre esta empresa anterior, hoje:
* Insolvência declarada, activa * Devedor à Segurança Social * Quatro execuções públicas em 2024, totalizando cerca de 52 mil euros, três delas fechadas pelo tribunal por "inexistência de bens" * Sem prestar contas desde Setembro de 2022 (referente ao exercício de 2021)
E sobre o próprio gerente, aparece nos registos do CITIUS associado a um processo de insolvência pessoal datado de Outubro de 2014. Está visível publicamente há mais de dez anos.
A linha do tempo
Ordem cronológica nos registos públicos CONHECIDOS (poderá haver falhas):
* 6 de Outubro de 2014 - registo CITIUS associado a insolvência pessoal do gerente * 15 de Julho de 2020 - ML VIRTUAL é constituída, mesmo gerente * 2 de Setembro de 2022 - última prestação de contas da ML VIRTUAL. A partir daqui, silêncio * 11 de Junho de 2024 - execução pública contra a ML VIRTUAL em Vila Nova de Famalicão (2.988€) * 17 de Junho de 2024 - Dilomi nasce, seis dias depois da execução, na mesma morada física da ML VIRTUAL * Verão de 2024 - segundo a reportagem da CMTV, os primeiros clientes começam a pagar tranches à Dilomi * Outubro e Novembro de 2024 - mais três execuções fechadas por "inexistência de bens" contra a ML VIRTUAL, somando cerca de 49 mil euros * 22 de Outubro de 2025 - sai a licença camarária de uma das clientes da Dilomi, é entregue na empresa, a obra nunca arranca * Janeiro a Abril de 2026 - oito processos cíveis distribuídos contra a Dilomi (seis execuções de credores e duas acções no Tribunal do Trabalho de Vila Real) * 18 Maio de 2026 - reportagem da CMTV
Em léxico jurídico, isto é compatível com o que se chama "empresa fénix": uma nova sociedade criada depois de problemas numa empresa anterior, com continuidade de pessoas, morada, ou actividade. Não é prova de fraude (haverá decisão judicial em devido tempo), mas é um padrão que devia ter feito acender a luz vermelha a qualquer pessoa que estivesse a fazer due diligence antes de assinar contrato.
Os dados de distribuição de tribunais cíveis a que consigo aceder só começam em Outubro de 2025. Os oito processos cíveis contra a Dilomi que listei acima são o que está visível nessa janela. Pode perfeitamente haver mais processos distribuídos entre Junho 2024 e Outubro 2025, no período em que a empresa já estava em atividade e a reportagem refere clientes em queixa há quase dois anos. Não consigo confirmar isso publicamente. Os oito são a janela mais recente, não necessariamente o total.
Honestamente, é frustrante ver isto a acontecer outra vez. Pessoas e famílias inteiras a perderem 40, 50, 100 mil euros das poupanças de uma vida, e estes padrões continuam a repetir-se em Portugal sem que nada mude. Palmela no início do ano, agora isto, e provavelmente há mais casos a acontecer neste momento que ainda não chegaram às notícias. As entidades fiscalizadoras chegam sempre tarde, os bancos parecem não olhar para isto antes de aprovar financiamentos, e quem fica com a fatura são as famílias.
Onde está a falha sistémica
Tudo o que sintetizo aqui em cima estava em registos públicos antes de Junho de 2024. CITIUS, Publicações do Ministério da Justiça, Portal da Justiça, listas de execuções. Gratuito, acessível, e ao mesmo tempo espalhado por quatro sistemas diferentes com interfaces antigas e sem cruzamento entre eles. E há um detalhe que torna isto particularmente difícil para o cidadão comum: nenhuma destas fontes permite pesquisa por nome ou NIF do gerente. Toda a indexação é por NIPC da empresa. Para descobrir que o gerente da Dilomi tem uma empresa anterior (a ML VIRTUAL) na mesma morada, e cruzar isso com o histórico daquela empresa, é praticamente preciso uma base de dados própria que faça esse cruzamento director→empresas. Não há atalho público para chegar lá.
Na prática, quase ninguém em Portugal faz isto antes de assinar contrato com uma construtora. E não é por preguiça, é porque é mesmo difícil saber por onde começar. Eu próprio só consegui chegar à cronologia que partilhei acima porque cruzei tudo na nossa app, o ObraXRAY, em vez de saltar manualmente entre as quatro plataformas.
Como verificarem por vocês
Se estiverem a pensar contratar uma construtora, antes de assinar contrato ou pagar sinal, vale o esforço passar pelas seguintes fontes:
* CITIUS - citius.mj.pt - insolvências e processos * Publicações MJ - publicacoes.mj.pt - constituição de empresas, alterações, prestação de contas * Portal da Justiça - listas públicas de execuções * IMPIC - impic.pt - alvarás de construção
E aqui está a parte mais frustrante: nenhuma destas fontes vos deixa cruzar pelo gerente. As publicações são indexadas pelo NIPC da empresa, não pela pessoa. Para descobrir que o gerente da empresa que estão a contratar já dirigiu outras empresas que foram à insolvência ou estão em execução, não há busca pública directa. É preciso saber o nome, pesquisar manualmente em motores de busca, redes sociais, ou ter uma base de dados que faça o cruzamento director→empresas por vocês. É um trabalho de detective que praticamente ninguém faz antes de assinar contrato.
Onde eu próprio verifiquei tudo isto
Verifiquei na nossa própria ferramenta, o ObraXRAY, que construímos este ano exatamente para resolver este problema. Junta os registos das fontes oficiais portuguesas num único relatório e faz o cruzamento gerente-empresa-morada-empresa anterior automaticamente. Hoje, se pesquisarem pela Dilomi lá, dá 0 em 100, veredicto "Não Avançar". Não é porque alguém escreveu um aviso manual, é porque os registos públicos cruzados retornam esse resultado por si.
Não vai apanhar todas as fraudes (nenhum sistema apanha), mas torna o que demorava uma semana de pesquisa manual num clique. Foi por causa do caso de Palmela do início do ano, e agora deste, e por outros que se vão acumulando, que decidimos meter mãos à obra. Esperemos que ajude a prevenir mais casos como este.
Disclaimer: toda a informação aqui é factual à data deste post, baseada em registos públicos e na reportagem da CMTV. Nada disto constitui acusação de prática criminal, que só pode ser declarada por decisão judicial transitada em julgado. Se virem qualquer erro factual, corrijam nos comentários e eu atualizo o post.
Estas pessoas agradeceram este comentário: Dominus, rmarinho
Fui espreitar. A recolha de informação de várias fontes feita por esta via parece-me uma ferramenta muito útil. Mais: tem muito potencial, a ferramenta não precisa de ficar restrita a construtoras.
Estas pessoas agradeceram este comentário: ObraXRAY
Colocado por: ClioIIFui espreitar. A recolha de informação de várias fontes feita por esta via parece-me uma ferramenta muito útil. Mais: tem muito potencial, a ferramenta não precisa de ficar restrita a construtoras.
Estas pessoas agradeceram este comentário:ObraXRAY
Obrigado pelo feedback! E sim concordo. A aplicação cruza os dados de qualquer empresa Portuguesa, apesar de termos bloqueado apenas para CAEs relacionados com a construção, possivelmente no futuro iremos expandir, mas o foco é na construção de momento, porque é onde o problema é urgente e necessário resolver.
não acompanhei o assunto mas realmente o mais premente é que haja algo indentifique as pessoas pois de nada vale apenas a empresa pois na semana a seguir abre outra com outro nome