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  1.  # 1

    Boas! É ridículo eu estar aqui novamente a escrever sobre isto. Há cerca de uma semana fiz aqui um post sobre o caso da Dilomi, a empresa de casas modulares em Vila Real, e hoje estou a fazer outro, sobre outra construtora, outra vez com dezenas de famílias lesadas.

    E o que me tira mesmo do sério é perceber que estes são só os casos grandes Os que têm vários lesados e alguém com energia para se chatear a juntar provas, criar grupos de Facebook e levar isto à televisão, portanto imaginem quantos casos existem em Portugal.

    Neste caso, a coisa chegou onde chegou muito por causa de uma das lesadas: começou a juntar tudo há mais de um ano, criou grupos de facebook de lesados, chegou a imensa gente, e disse que ia fazer praticamente um objetivo de vida não deixar que o responsável escape a isto. Mas imaginem quantas pessoas é que simplesmente engolem o prejuízo e seguem em frente, porque não têm tempo, dinheiro nem cabeça para andar a lutar, especialmente quando muitas vezes não acontece nada a estes burlões.

    Saiu no Sábado uma reportagem no Canal NOW sobre a Fornelosluxsteel, uma construtora de Barcelos que faz casas em aço leve "chave na mão". Já se falava do caso, mas a reportagem juntou dezenas de famílias que dizem ter pago casas que nunca foram terminadas.

    Entretanto fui pesquisar o que estava acessível nos registos públicos sobre esta empresa antes de tudo isto vir a público, e partilho aqui.

    A parte que me deixou mais perplexo é que no papel, parecia estar tudo bem.

    A Fornelosluxsteel Unipessoal, Lda (NIF 514608226) tem sede em Barcelos (entretanto mudada para Braga). À data deste post tem alvará IMPIC válido e, segundo o próprio IMPIC à reportagem, nunca foi suspenso desde que foi emitido, mesmo depois de dezenas de queixas. Aparentemente também não tem dívidas fiscais nem à Segurança Social registadas nos sítios onde normalmente se procura.

    Ou seja, quem fizesse a verificação que a maioria das pessoas faz (confirmar o alvará, ver se há dívidas óbvias) não encontrava nada de especial. Numa verificação rápida, passava.

    O risco só aparece quando se cruza o resto.

    Relatório Forneloluxsteel

    Os clientes

    Pela reportagem, entre os lesados que vieram a público estão:

    * uma cliente que diz ter pago cerca de 160 mil euros, com a obra a arrancar só em Outubro de 2024 e a ficar por terminar
    * uma cliente (nome fictício na reportagem) que descreve a casa por acabar e estima precisar de mais 50 mil euros para a terminar
    * um cliente cuja obra tem agora uma perícia judicial a recomendar a demolição integral, por não reunir condições de habitabilidade

    Há ainda uma reclamação detalhada no Portal da Queixa, de 2025, sobre um contrato "chave na mão" de cerca de 153 mil euros mais IVA.

    Confrontado, Pedro Eiras (o responsável da empresa) negou as acusações. Diz que as obras pararam por falta de pagamento dos clientes e não por abandono, admite ter falhado prazos, mas rejeita qualquer ideia de burla.

    O gerente e a empresa anterior

    É aqui que a leitura muda. O gerente único e sócio único da Fornelosluxsteel desde Setembro de 2025 é Pedro Octávio da Silva Eiras. E o nome dele já aparecia nos registos ligado a outra construtora de Barcelos:

    DOMIPOINT - Construção Civil, Lda (NIF 508051070), que Pedro co-geriu como sócio minoritário e um dos gerentes. Esta empresa foi declarada insolvente em 2010 (processo no Tribunal de Barcelos, com publicação no Diário da República) e acabou liquidada em 2015.

    Relatório Domipoint

    Há ainda um rasto fora de Portugal: segundo registos públicos de empresas em França, Pedro Eiras terá sido sócio de uma sociedade francesa de construção que foi liquidada judicialmente por insuficiência de ativo. Esta parte vem de registos franceses e não a consegui confirmar de forma tão sólida como a parte portuguesa, por isso fica como o que é.

    Os processos

    Nos registos de processos cíveis que consigo consultar, a Fornelosluxsteel aparece como ré em vários processos recentes, em comarcas diferentes (Viana do Castelo, Braga, Barcelos, Vila Nova de Famalicão). O maior é uma acção de cerca de 173 mil euros em Viana do Castelo. Há ainda uma execução de sentença em Vila Nova de Famalicão (Outubro de 2025), que é um sinal mais avançado do que uma ação em aberto, porque esta já pressupõe uma decisão ou título que permite ao credor avançar para a cobrança da dívida.

    Processos Cíveis Forneloluxsteel

    Pode haver mais processos anteriores fora dessa janela. Os que listo são o que está visível, não necessariamente o total.

    Os trabalhadores, e o que se disse no debate

    A reportagem, e o debate em estúdio que se lhe seguiu (com a jornalista Luana Plácido, o advogado Pedro Proença e o ex-inspetor da PJ César Afonso), trouxe ainda duas coisas que vale a pena registar.

    Primeiro, alegações de exploração de trabalhadores imigrantes: vários trabalhadores, deslocados entre Espanha, França e Portugal, dizem ter salários em atraso e falam num clima de medo, com pressão para assinar documentos e receio de serem denunciados à imigração. A reportagem mostrou pessoas a viver em cinco construções junto à casa do responsável, e a Câmara de Barcelos diz não ter encontrado licenciamento dessas habitações. Pedro Eiras diz ter cerca de 60 trabalhadores, nega atrasos nos salários, e afirma que essas pessoas não são dele, mas do cunhado.

    Segundo, o debate. E aqui quero ser claro: o que o advogado e o ex-inspetor disseram são análises e suspeitas deles, não conclusões minhas nem do ObraXRAY. Levantaram a hipótese de o caso justificar investigação por vários crimes, da burla qualificada a questões laborais e de imigração, sublinhando sempre que falavam de indícios a investigar e não de factos provados. Para contexto, e para ser justo: Pedro Eiras nega tudo, uma queixa-crime de uma das lesadas foi arquivada pelo Ministério Público, e nada foi até hoje provado em tribunal.

    O grupo de lesados no Facebook, entretanto, já passou dos 400 membros.

    A linha do tempo

    (ordem cronológica nos registos públicos conhecidos)

    * 2007 - constituição da DOMIPOINT, em Barcelos
    * 2010 - a DOMIPOINT, co-gerida por Pedro Eiras, é declarada insolvente
    * 2015 - a DOMIPOINT é liquidada
    * 2017 - é constituída a empresa que viria a ser a Fornelosluxsteel (então com o nome "Ângulos e Percentagens, Lda")
    * 2020-2021 - a empresa adopta o nome Fornelosluxsteel e passa a sociedade unipessoal
    * 2022 - uma reclamação refere um contrato negociado com Pedro Eiras, mas assinado pela gerente formal da altura
    * 2024-2025 - acumulam-se processos em tribunal e uma execução de sentença
    * Setembro de 2025 - Pedro Eiras assume a gerência única e 100% da empresa
    * Maio de 2026 - reportagem do Repórter Sábado

    Onde está a falha sistémica

    A questão deste caso, para mim, é que a Fornelosluxsteel tinha alvará válido e, isoladamente, parecia limpa. O que muda tudo é o conjunto, e sobretudo o histórico de quem a gere. E essa parte é precisamente a mais difícil de descobrir.

    Quase tudo o que sintetizei aqui está em registos públicos. CITIUS, Publicações do Ministério da Justiça, Portal da Justiça, IMPIC, Diário da República. Mas está espalhado por vários sistemas diferentes, com interfaces antigas e sem cruzamento entre eles.

    Na prática, quase ninguém faz isto antes de assinar. E não é por preguiça, é porque é mesmo difícil saber por onde começar.

    Como verificarem por vocês

    Se estiverem a pensar contratar uma construtora, antes de assinar ou pagar sinal, vale a pena passar por estas fontes:

    * IMPIC - confirmar o alvará. Mas, como este caso mostra, o alvará sozinho não chega
    * CITIUS - insolvências e processos
    * Publicações do Ministério da Justiça - constituição, alterações e prestação de contas das empresas
    * Portal da Justiça - listas públicas de execuções

    E, mais importante do que tudo, tentem perceber quem são os gerentes e sócios e que outras empresas tiveram antes. Como não há busca pública pelo nome do gerente, é trabalho de detective.

    Transparência: onde eu verifiquei isto

    Como já devem ter visto, sou o fundador do ObraXRAY, uma ferramenta que construímos este ano precisamente para fazer este cruzamento (junta os registos das fontes oficiais portuguesas num relatório e cruza gerente, empresa, morada e empresas anteriores). Foi lá que confirmei a maior parte desta cronologia, e hoje a Fornelosluxsteel aparece com 15/100, veredicto "Não Avançar".

    Quem quiser ver o relatório completo que usei para isto, com tudo cruzado, está aberto e gratuito (sem registo nem pagamento) aqui.

    Mas o ponto deste post não é a ferramenta, é o problema. Esta informação devia ser fácil de cruzar por qualquer pessoa, de borla, e não é. Quer usem uma ferramenta, quer façam à mão, o importante é não assinar às escuras.

    E lá está, para mim é frustrante ver isto repetir-se novamente, e vai continuar enquanto Portugal não tiver uma reforma sistémica da sua justiça e mais. Famílias a perderem as poupanças de uma vida em padrões que estavam visíveis nos registos antes do primeiro contrato, e quase nunca a tempo.

    Disclaimer: toda a informação é factual à data deste post, baseada em registos públicos e na reportagem do Repórter Sábado. Pedro Eiras nega as acusações. Nada disto constitui acusação de prática criminal, que só pode ser declarada por decisão judicial. A parte sobre a sociedade francesa vem de registos franceses e não foi verificada de forma independente.

    Se virem algum erro factual, corrijam nos comentários que eu atualizo o post.
    Estas pessoas agradeceram este comentário: IronManSousa, sltd
  2.  # 2

    A malta gosta de ser enganada, projeto chave na mão por menos de 180/200K€.

    É como na reportagem dos importados da Alemanha, valor médio de 18000€, viram anúncio por 4500€, esfregaram as mãos pelo achado, depois ficaram a arder.

    Enquanto pessoas quererem preço e mentalidade do bom, bonito e barato, este tipo de casos não vai acabar.

    Galinha gorda por pouco dinheiro, a ilusão e sonho de muitos, que por norma se torna em pesadelo.
  3.  # 3

    Enquanto o Estado fica à margem da construção privada, isto vai acontecendo.
    O Varejote acha que a culpa é das pessoas? Há quem não sabe melhor e acredita. O problema é quem já vem para enganar o outro e depois passam-se anos e nada lhe acontece, pelos vistos.
    Concordam com este comentário: jorgemlflorencio
  4.  # 4

    porque é que vocês estão a responder a um anúncio de AI slop disfarçado de preocupação, quando existe outro post

    já cansa, é AI slop em todos os lados
  5.  # 5

    Não sou afiliado de todo do site em questão mas é bom que se ponha a claro e fique para a posteridade estas informações.
    e by the way...
    Concordam com este comentário: AlexMontenegro
    Estas pessoas agradeceram este comentário: ObraXRAY
      2026-05-25 16_50_12-W__Projects_PRT - File Explorer.jpg
  6.  # 6

    Colocado por: vascoooolEnquanto o Estado fica à margem da construção privada, isto vai acontecendo.
    O Varejote acha que a culpa é das pessoas? Há quem não sabe melhor e acredita. O problema é quem já vem para enganar o outro e depois passam-se anos e nada lhe acontece, pelos vistos.


    Vigaristas existem e vão existir em todos os setores, os que entram no investimento da vida como quem compra um par de botas, vão continuar a serem enganados.
  7.  # 7

    Vi a reportagem e não me imagino numa situação assim, desta dimensão, como aquela vivida pelos alegados lesados.
    Alem disso, é mais um caso que não vem dignificar as soluções em LSF.

    Boas (se bem feitas E feitas). Nada contra.
    Mas é muito fácil muitos de nós conhecerem um caso em que as coisas deram para o torto.

    Tenho uma na minha rua. Não terá sido essa empresa, mas a coisa também correu mal.

    NOTA: empreiteiros que falham os seus compromissos existem em todo o lado. Mesmo na construção tradicional.
    Mas ao contrário do "tijolo" e do betão, LSF não é compatível com atrasos da dimensão daqueles que foram documentados na reportagem.
 
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