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Nasceu sob o signo da aldrabice. Assim que veio ao mundo, conseguiu enganar a própria parteira, fazendo-se passar por menina. Só quando lhe mudaram a primeira fralda descobriram que era menino. Cresceu devagarinho, quando todos queriam que se fizesse homem depressa e, de súbito, quando menos se esperava, deu um pulo e deixou crescer a barba em dois dias. Na escola, enganava o professor, utilizando cábulas falsas e respondendo às perguntas em play-back. Fez as quarta classe a um domingo e entrou no liceu pela porta das traseiras. Tirou o curso por correspondência, forjando as cartas em ambos os sentidos. Era ele que elaborava as lições, enviando-as, depois, pelo correio, para a sua própria morada. Estudava-as, respondia aos inquéritos redigidos por ele e tirava sempre a nota máxima, embora com alguma batota. Foi ainda ele que passou o diploma de técnico de relações públicas, mas conseguia fazer-se passar por consultor jurídico, graças a um bigode respeitável e muita lata. Já nessa altura desenvolvera a lábia, a garganta, o patuá. Colocava bem a voz, fazia os gestos apropriados e a lábia fazia o resto. Falsificou cheques, notas e moedas, vendeu agulhas sem buraco, buracos sem fundo, fundos sem meios, meios sem pontas, pontas sem mola, molas sem colchões, colchões sem espuma, espumas sem cerveja, cervejas sem garrafas, garrafas sem vidros, vidros sem relógios, relógios sem ponteiros, ponteiros sem bico, bicos sem gás, gás sem bilha, bilhas sem asas, asas sem pássaros, pássaros sem penas, penas sem tinta, tintas sem pincel, pincéis sem cola, colas sem tubo, tubos sem escape, escapes sem carro, carros sem rodas, rodas sem aros, aros sem anéis, anéis sem dedos, dedos sem nós, nós sem linhas, linhas sem agulhas, agulhas sem buraco... E para culminar a sua brilhante carreira de burlão, suicidou-se na véspera da sua morte, falsificando a certidão de óbito."
"Pão com manteiga"
Rádio Comercial, emissão de 13 de Dezembro de 1981